APOSENTADORIA: afastamento das atividades usuais de trabalho (2ª parte)* – Boletim nº 144

A ansiedade, em diferentes graus, é recorrente no período próximo ao afastamento, como em qualquer processo de transição. Nem todos estão seguros do que farão, mas o desconhecimento de informações pertinentes e a negação de fatores emocionais específicos desse momento são potenciais dificultadores da transição. Embora pouco praticado pelos brasileiros (Bellotto, 2009), o planejamento é largamente citado como a melhor maneira de reduzir os riscos e aprender a lidar com os estressores potenciais da aposentadoria (França, 1992; Zanelli & Silva, 1996; Zanelli, Silva & Soares, 2010). Entre os elementos previsíveis na adaptação saudável, os aspectos financeiros são os que centralizam a atenção da maioria dos que vão se aposentar e que poderiam ser minimizados se fossem antecipados pela educação ou planejamento, como responsabilidade, sobretudo, do Estado (Stepansky, 2012). Contudo, é inegável a influência de fatores relacionados ao bem-estar físico, social e psicológico.

A manutenção de uma autoimagem de saúde física precária, decorrente e reforçada pelos desgastes profissionais, por condições inadequadas do exercício das atividades de trabalho, pode também ser propícia a manifestações psicológicas desfavoráveis. Conforme Gabriel (1984), atitude favorável e autoimagem positiva da saúde física potencializam sensações de bem-estar. Assim, estas podem proporcionar cognições de distanciamento da velhice e da morte, usufruir melhor a vida, favorecer mobilidade e encontros para recreação ou construção social (França, 2009a).

O nível econômico, o tipo de trabalho praticado, o estilo de vida e a saúde prévia estão relacionados ao estado de bem-estar experimentado nos anos posteriores à aposentadoria. São fatores em mutideterminações e requerem abordagens multidisciplinares para a compreensão da aposentaodoria (França & Stepansky, 2012). Assim como a saúde, o estado civil, os rendimentos financeiros e o nível de educação cumprem um papel destacado na predição do ajuste posterior à aposentadoria. Todas essas variáveis interagem de modo conjugado. Contudo, os que detêm maior nível de educação são aqueles que melhor planejam a continuidade de vida para a nova situação (Queiroz, 2006, 2007). Razões positivas para antecipar a aposentadoria, como a busca de liberdade, desfrute de atividades e relacionamentos prazeirosos ocorrem com maior frequência entre trabalhadores em ocupações mais altas, com maior nível educacional e pessoal do setor de serviços (Henkes & Siegers, 1994).

Para quem está prestes a se aposentar, os anos imediatamente anteriores ao evento formal de desligamento pela aposentadoria podem ser de intensas preocupações ou nem tanto. De qualquer maneira, além dos aspectos de ordem subjetiva, as condições objetivas desse período são relevantes. Entre os aspectos pessoais, estão incluídas as condições de saúde, interesses, finanças, oportunidades de novos rendimentos, responsibilidades ou demandas familiares. A organização onde a pessoa trabalha, pautada por suas políticas e características culturais, também pode forçar o evento. O grupo de trabalho pode, igualmente, se revelar pressionador (Zanelli, Silva & Soares, 2010). Potocnik, Tordera e Peiró (2009, 2010) demonstram que o contexto organizacional e o contexto do grupo desempenham um papel importante e fatores de ambos os contextos interagem no processo exitoso de aposentadoria. Potocnik, Tordera e Peiró (2009) argumentam que os contextos grupais e organizacionais desempenham um papel importante no processo de aposentadoria. Além disso, seus resultados sustentam uma interação entre os fatores grupais e os organizacionais no processo de desligamento do trabalho, nomeadamente, as práticas de Recursos Humanos e as normas do grupo de trabalho.

Prof. Dr. José Carlos ZANELLI

Diretor do Instituto Zanelli – Saúde e Produtividade. Idealizador e Presidente de todas as edições do Congresso Brasileiro de Orientação para Aposentadoria. Autor de livros e artigos científicos sobre aposentadoria. Consultor para implantação de programas de preparação para aposentadoria nas organizações públicas e privadas, conferencista para sensibilização e instrutor de módulos de qualificação de agentes de preparação para aposentadoria desde 1993. (48)3335 0553/9983 6559 – jczanelli@terra.com.br
*Este é um trecho extraído do artigo:Zanelli, José Carlos. Processos Psicossociais, bem-estar e estresse na aposentadoria. Rev. Psicol., Organ. Trab.Vol.12, n. 3. Florianópolis, dez. 2012.

1 Resposta para“APOSENTADORIA: afastamento das atividades usuais de trabalho (2ª parte)* – Boletim nº 144”

  1. Jeras Costa diz:

    Boa tarde!
    Gostei bastante do texto e do curso que vem trazendo o novo jeito de ver a aposentadoria, eu mesma estava analisando como será a minha vida depois da aposentadoria. O curso veio abrir varios leques de possibilidades interessantes para que seja colocada em prática quando aposentada.
    ATT.
    Jerasi Costa

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