Sonho sem limite – Boletim nº 155 – Julho 2017 *

Como vejo muitas pessoas com baixa autoestima e reclamando da crise, resolvi reenviar este artigo, divulgado em 2011- boletim nº 71. Recomendo a leitura, pois Lilian Cury, que ficou cega aos 40 anos, dá um excelente testemunho de vida.

“Estou sendo ousada ao fazer um depoimento sobre o artigo “Sonho – 1º estado da aposentadoria ativa”.

“Eu não vejo, mas penso, ouço, toco com os dedos, imagino e permito-me sonhar!”

A minha aposentadoria surgiu muito mais cedo do que eu imaginava! Aos quarenta anos de idade, fui aposentada por me tornar uma pessoa totalmente cega! Perdi a visão. Assim, eu me vi diante de uma encruzilhada, continuo ou paro?

O que posso fazer da minha vida sem ver? Onde foram parar todos os projetos que realizei, todos os programas de treinamento que desenvolvi? Onde se esconderam meus sonhos? Minha inteligência foi embora com os meus olhos sensoriais? Minha vontade se perdeu na mesa do hospital? E a minha liberdade de escolha, eu a perdi com meus olhos do corpo físico?

“Quando fui ferida, vi tudo mudar. Das verdades que eu sabia, só sobraram restos que eu não esqueci…toda aquela paz que eu tinha…eu que tinha tudo hoje estou cega…estou mudada …daria tudo por meu mundo e nada mais…daria tudo por um modo de esquecer…” – “Meu mundo e nada mais” – Guilherme Arantes

Quantas vezes, eu quis esquecer que fiquei cega! Não conseguia. Era só eu estar acordada, que abria os olhos e só via um branco com pintinhas pretas! E se fechasse os olhos eu via a mesma coisa! Quantas vezes eu quis por um segundo voltar a ver, mesmo que ficasse cega logo depois! Mas isto nunca acontecerá! Acreditar em milagres, por que não? Só que não posso me contentar em viver sobre uma afirmação tão rara! São onze anos e quatro meses! E por quantas fases, eu passei!

Primeiro, negava minha cegueira! Ah! Isto só começou a acontecer, quando retomei minha lucidez, minha memória, e isto só aconteceu quase dois meses depois que saí do hospital! Eu olhava para minha casa, na qual morava há sete anos antes de ficar cega! Parece que eu via tudo! Só que, às vezes, a porta de um dos cômodos me “avisava” que eu estava cega, pois eu batia o braço na porta, no batente, e a dor vinha! Não demorou muito, mas eu neguei a mudança. Depois, comecei a acordar de mau humor! A raiva tomava conta de mim!

Mas acabei percebendo que de nada me adiantaria ficar com raiva da vida, pois a cegueira já tinha chegado. Por que tratar mal, aqueles que ficaram mais perto de mim “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”? Quem ganharia algo com isto? Eu é quem mais perdia, destilando a raiva que tinha da vida, nos meus relacionamentos familiares e sociais. Isto não trazia de volta meus olhos sensoriais! Só me levava mais para o fundo do poço!

Comigo era assim “Já que a vida tirou meus olhos, não vou ter paciência de aprender a ler e escrever em braille”!

Mais uma vez, percebi que não enganava nada nem ninguém com isto! Nada tiraria de mim, a dor, a raiva por ter ficado cega!

Escolhi, depois de um tempo, retomar meu tratamento psicoterápico, o que contribuiu muito para que eu otimizasse o tempo necessário para passar por todas essas fases!

Durante muito tempo, se eu fizesse algum sucesso, dando uma palestra, ou sendo chamada para participar de algum evento sobre o tema, eu sentia que era “prêmio de consolação”!

Demorei para perceber que não existia este lance de consolação! Eu sobrevivi e isto já foi um baita prêmio! Sobrevivi com lucidez e recuperei minha memória, minha fala, meus movimentos, minha audição ficou até mais aguçada. Não estamos nesta vida, para passarmos o tempo todo por uma “banca examinadora” que dará nota para nossa performance, para nossas reações e jeito de viver! Nós mesmos somos nossos juízes! Cada um tem de ver e aprender a ver a repercussão dos seus atos!

Em 2010, realizei meu sonho de viajar para a Espanha, dez anos após a data inicialmente programada que seria em 2000 ao completar meus 40 anos. E foi demais! Consegui curtir chegar num país desconhecido, sem ver nada, mas continuava com minha inteligência, minha memória, meus desejos continuaram em meu peito, minha alma, e isto ninguém tirou de mim!

E foi fundamental pra mim trabalhar, cumprir a missão que assumi, de continuar aqui, para defender a deficiência definida cientificamente como tal, não como um castigo, mas como uma característica!

Meu amor por meu marido continuou vivo, e até cresceu, depois de tanta barra que aguentamos juntos!

Vamos olhar para nossa vida e vê-la com simplicidade, naturalidade! Chega um momento, em que temos de aceitar uma “parada”, sair da rotina que reclamávamos e hoje sentimos a sua falta! E aceitar a parada, sem parar de sonhar, de sentir, de pensar, de amar, de querer, de curtir, de aprender, de ensinar, de usar tudo o que a vida nos ensinou, como uma “alavanca”, para não “recolhermo-nos aos aposentos”! A aposentadoria é natural e temos que aprender a desfrutar dela! Ela não leva nossa vontade de criar, de surpreender, de fazer algo diferente, de continuar vivo! Assumamos o tempo que hoje temos, para usá-lo como quisermos! Se pensarmos por aí, somos privilegiados!

Eu sempre gostei muito de músicas. Aprendi a tocar violão, amo cantar e uso muitas músicas em minhas palestras e cursos. Uso esta canção e já gostava muito dela, bem antes de ficar cega!
“…e assim seja lá como for…vai ter fim a infinita aflição e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”! “Sonho Impossível” – versão de Chico Buarque e Maria Bethânia.

Vamos viver e fazer nossa felicidade acontecer aqui e agora!”

Lilian Cury
* (Depoimento de Lilian Cury, sobre o artigo “Sonho – O 1º estado da aposentadoria ativa”, divulgado pelo Clube dos Desaposentados em 1º de julho de 2011, transformado em artigo).

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